Astronomia Indígena: o céu dos nativos brasileiros.

Astronomia Indígena: o céu dos nativos brasileiros.

Abril é o mês do Índio. E o céu é o patrimônio histórico natural da humanidade que, ao longo dos anos, nos ajudou a entender melhor a natureza e o universo. Ao redor do mundo temos inúmeros registros de como os antigos construíram esse conhecimento sobre a astronomia e de como eles usavam tais informações para facilitar sua vida cotidiana.

Um dos mais famosos monumentos históricos é o Stonehenge, uma construção de cerca de 3.000 anos a.C., formada por círculos concêntricos, com cerca de 5 metros de altura e uma estimativa de 50 toneladas, que para os antigos, além de fins religiosos também tinha a finalidades astronômicas, como por exemplo, determinar os solstícios de verão e inverno.

O que muitos não sabem é que os índios também usam o céu como ferramenta na sua cultura, rica em informação e é mantida por gerações. No Brasil, o estudo de etnoastronomia e de arqueoastronomia tenta compreender como as tribos nacionais, compreendem esses fenômenos, e como a partir deles podem mapear os eventos passados.

A arqueoastronomia especificamente busca encontrar e estudar monumentos e intervenções que possuem relação com a astronomia, como, por exemplo, o Stonehenge. Nacionalmente, temos inúmeras construções indígenas, realizadas por várias tribos, com histórias diferentes que muitas vezes possuem a mesma finalidade. Germano Bruno Afonso, doutor em astronomia pela Universidade de Paris e professor aposentado da UFPR, é um dos grandes nomes desta área. Ele busca, em suas pesquisas ao redor do Brasil, resgatar esse conhecimento junto às tribos e trabalhar a divulgação científica deles.

Logo, com esses conhecimentos, as tribos indígenas tinham noção de tempo, lavoura, colheita, caça e condições climáticas. O céu indígena também é repleto de riquezas. As constelações conhecidas por nós e ensinadas nas escolas são totalmente diferentes e possuem histórias que remetem a sua cultura. Uma das constelações indígenas mais conhecidas é a constelação da Ema, que aparece na segunda quinzena de junho. Quando esta constelação aparece, indica o início do inverno para os índios do sul do Brasil e o início da seca para os índios do nordeste. Em seguida temos uma adaptação do conto da constelação da Ema, contada pelos índios da etnia terena, da aldeia Ekeruá/Avaí.

“Há muito tempo atrás, cada espécie de animal vivia no céu de onde protegiam e alimentavam os moradores da terra. Eles eram conhecidos como os animais celestes. Os animais celestes andavam pela terra durante o dia e voltavam à noite para o céu cuidando lá de cima, para que aqui embaixo, o equilíbrio e a harmonia entre os homens e a natureza se mantivessem. Todos os moradores da terra sabiam que deviam respeitar esses animais, principalmente a Ema, que era grande e majestosa pois possuía uma vasta plumagem clara, aquecia a todos no inverno, que usavam suas enormes penas para se aquecer. Porém, certo ano, fez um rigoroso inverno, as construções onde moravam os índios não conseguiam impedir que o vento frio entrasse pelas fendas da parede e gelasse tudo o que estava lá dentro, principalmente as pessoas. As crianças choravam de frio. Vendo aquela situação desesperadora, os jovens destemidos da aldeia, no intuito de aquecer seus parentes e salvar as crianças do frio, pensaram em arrancar as penas da Ema, sem que percebesse enquanto dormia, e aquecer com essas penas as crianças que sofriam com a situação. E assim fizeram. Quando a Ema acordou viu que sua bela plumagem estava com falhas, partes do seu corpo estavam sem as penas. Estranhando tentou entender o que havia acontecido. Como de costume, pela manhã, desceu a terra e foi se alimentar. Percebeu que ninguém estava reclamando do frio, coisa rara naquela época do ano. Ao espiar dentro das casas viu que todos os índios da aldeia estavam quentinhos, as crianças quietinhas, todos cobertos de muitas penas, e nesse momento ela reconheceu que eram suas. Ema ficou furiosa, logo pensou em se vingar. Deixou que ficassem com as penas porque sentiu compaixão das crianças da aldeia, mas comeu todos os ovos dos ninhos das aves e bebeu água, bebeu tanta água que quase secou o planeta. Comeu tanto, que dois dos ovos nem conseguiram descer pelo pescoço. Os guerreiros da tribo percebendo que a Ema estava comendo toda a sua comida e bebendo toda a água dos rios, se reuniram e decidiram prender a Ema, afinal aqueles ovos eram seu único alimento em tempo de escassez, e a água, necessária para manter a vida no planeta. Depois de muita agilidade a capturaram e a amarram no céu para que não descesse mais. Amarraram sua cabeça em uma forquilha em forma de cruz. Até hoje, quando chega à época do frio, a Ema aparece no céu com a cabeça presa. Se a forquilha soltar a sua cabeça ela descerá à terra e comerá os ovos dos ninhos e beberá toda a água dos rios. Por isso nos meses de inverno, durante a noite, os índios não dormem, vigiam a Ema a noite toda para que ela não se solte, desça a terra e continue a comer e beber continuando a sua vingança.”

A constelação da Ema (Guyra Nuandu) fica na região do céu ocupada pelas costelações ocidentais do Cruzeiro do Sul, da Mosca, do Centauro, do Escorpião, do Triângulo Austral e de Altar. Fonte: http://fisica.ufpr.br/tupi

 

E por fim, temos o documentário Cuaracy Ra’Angaba – O céu Tupi Guarani, que possui a codireção do Professor Germano, onde é abordado a astronomia indígena e a preocupação de sua extinção, que sem os seus devidos registros podem em duas gerações desaparecer.

 

https://www.youtube.com/watch?v=obuRxNgAh6c&t=1464s

AFONSO, G.B.; NADAL, C. A. História da Astronomia no Brasil. Arqueoastronomia. In: Oscar T. Matsuura (Org.). Companhia Editora de Pernambuco – Cepe. Recife. 2014. Cap.2 p. 54 – 86.

 

Texto escrito por: Samanta Antonio

Deixe uma resposta

Fechar Menu
%d blogueiros gostam disto: